Precificação
9 min
18 de março de 2026

Markup para açougue: o guia completo para precificar cortes e produtos processados

O markup é a ferramenta central da precificação no açougue. Mas aplicar o markup errado — ou no lugar errado — pode fazer você trabalhar muito e lucrar pouco. Entenda como calcular, aplicar e ajustar o markup para cada tipo de produto.

O que é markup e por que ele importa no açougue?

O markup é o percentual adicionado ao custo de um produto para chegar ao preço de venda. É a ferramenta mais usada na precificação do varejo — e também a mais mal usada.

No açougue, o markup precisa ser calculado com cuidado especial porque o custo real do produto não é o custo de compra da carcaça. Como vimos em outros artigos, o rendimento da desossa, as perdas operacionais e os custos fixos rateados compõem o custo real — e é sobre esse custo real que o markup deve ser aplicado.

Markup sobre custo vs. markup sobre preço: a confusão que custa caro

Esta é a fonte do erro mais comum na precificação de açougues. Existem duas formas de calcular o markup:

Markup sobre o custo (markup simples)

Preço de Venda = Custo × (1 + Markup%)

Exemplo: custo R$ 20,00 com markup de 40% → Preço = R$ 20,00 × 1,40 = R$ 28,00

Neste caso, a margem bruta real é: (R$ 28,00 − R$ 20,00) ÷ R$ 28,00 = 28,6% — não 40%.

Markup sobre o preço (margem sobre venda)

Preço de Venda = Custo ÷ (1 − Margem%)

Exemplo: custo R$ 20,00 com margem desejada de 40% → Preço = R$ 20,00 ÷ 0,60 = R$ 33,33

Aqui a margem bruta real é de exatamente 40%.

A diferença entre os dois métodos no exemplo acima é de R$ 5,33 por kg. Em um açougue que vende 1.500 kg/mês, isso representa R$ 7.995/mês de diferença no resultado — R$ 95.940/ano.

Recomendação: sempre use o markup sobre o preço (margem sobre venda) para garantir que a margem desejada seja efetivamente atingida.

Tabela de markup recomendado por tipo de corte

O markup não deve ser igual para todos os cortes. A estratégia correta é diferenciar por categoria:

CategoriaExemplosMargem RecomendadaMarkup sobre Custo Equiv.
Cortes nobresPicanha, contrafilé, alcatra, fraldinha35% – 45%54% – 82%
Cortes intermediáriosPatinho, coxão mole, lagarto, maminha28% – 35%39% – 54%
Cortes popularesAcém, músculo, paleta, costela22% – 28%28% – 39%
Carne moídaMoída comum, moída especial20% – 25%25% – 33%
SuínosPernil, lombo, costela suína28% – 35%39% – 54%
AvesFrango inteiro, cortes de frango20% – 28%25% – 39%
Produtos processadosLinguiça, hambúrguer, marinados40% – 55%67% – 122%

Como calcular o markup correto passo a passo

Passo 1: Calcule o custo real por kg

Não use o custo de compra da carcaça diretamente. Calcule o custo real considerando o rendimento:

Custo Real/kg = Custo de Compra/kg ÷ Rendimento Líquido

Exemplo: carcaça bovina a R$ 13,00/kg com rendimento de 70% → Custo Real = R$ 13,00 ÷ 0,70 = R$ 18,57/kg

Passo 2: Some os custos fixos rateados

Divida seus custos fixos mensais pelo volume de kg vendido no mês:

Custo Fixo/kg = Custos Fixos Mensais ÷ Volume Vendido (kg/mês)

Exemplo: R$ 15.000 de custos fixos ÷ 2.000 kg/mês = R$ 7,50/kg

Passo 3: Calcule o custo total

Custo Total/kg = Custo Real/kg + Custo Fixo/kg = R$ 18,57 + R$ 7,50 = R$ 26,07/kg

Passo 4: Aplique a margem desejada

Para uma margem de 35% sobre o preço de venda:

Preço Mínimo = R$ 26,07 ÷ (1 − 0,35) = R$ 26,07 ÷ 0,65 = R$ 40,11/kg

Markup para produtos processados: onde está o maior lucro

Produtos processados (linguiças, hambúrgueres artesanais, carnes marinadas, espetinhos temperados) são a maior oportunidade de margem no açougue moderno. Veja a comparação:

ProdutoCusto/kgPreço de Venda/kgMargem Bruta
Carne moída (matéria-prima)R$ 22,00R$ 28,0021%
Hambúrguer artesanal (com a mesma carne)R$ 24,00*R$ 48,0050%
Pernil suíno (matéria-prima)R$ 18,00R$ 24,0025%
Linguiça toscana (com o mesmo pernil)R$ 20,00*R$ 38,0047%

*Custo inclui ingredientes adicionais, embalagem e mão de obra de processamento.

O hambúrguer artesanal tem margem 2,4x maior que a carne moída usada para fazê-lo. A linguiça tem margem 1,9x maior que o pernil. O processamento transforma matéria-prima de baixa margem em produto de alta margem.

Ajustando o markup pela concorrência

O markup ideal é aquele que maximiza o lucro dentro do que o mercado aceita pagar. Para isso:

  • Pesquise os preços dos concorrentes mensalmente nos 3 a 5 cortes mais vendidos.
  • Não tente ser o mais barato em tudo — isso destrói margem sem necessariamente aumentar volume.
  • Seja competitivo nos cortes âncora (carne moída, frango, costela) e aplique margens maiores nos cortes nobres e processados.
  • Diferencie pelo valor percebido: um hambúrguer artesanal com blend especial justifica preço 40% acima do hambúrguer comum, mesmo que o custo seja similar.

Revisão periódica do markup

O markup não é estático. Ele precisa ser revisado sempre que:

  • O custo de compra da carcaça mudar mais de 5%
  • Os custos fixos mudarem (novo funcionário, reajuste de aluguel)
  • O volume de vendas mudar significativamente (impacta o rateio dos custos fixos)
  • A concorrência mudar os preços

A regra prática: revise o markup mensalmente nos cortes de maior volume e trimestralmente em toda a tabela de preços.

Conclusão

O markup correto no açougue começa com o custo real — não o custo de compra. Aplique sempre a margem sobre o preço de venda (não sobre o custo) para garantir que a margem desejada seja efetivamente atingida. Diferencie o markup por categoria de produto e invista em processados para maximizar a rentabilidade do negócio.

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